E VOCÊ, SE VÊ NA TV? REPRESENTAÇÃO E IDENTIDADE DE “DIFERENTES FÍSICOS” NA TELEVISÃO
Apropriando-me do tema deste Congresso, Terras & Gentes, o que apresento aqui, antes mesmo de uma “sessão de comunicação”, é um convite a uma reflexão, um convite a uma abordagem em torno da identidade e da representação social e cultural de uma gente sobre a qual, supostamente, a maioria de nós nunca se deteve para refletir. Antes, entretanto, gostaria de explicitar a quem refere-se o “você” do título desta apresentação. O “você” refere-se aqui às pessoas ditas portadoras de limitações e ou diferenças físicas, pessoas que o senso comum secularmente nomina como aleijados e que a semântica politicamente correta prefere chamar de pessoas portadoras de deficiência física ou pessoas portadoras de necessidades especiais. Mais especificamente, o “você” deste título refere-se às mulheres que trazem no corpo as marcas que as diferenciam da corporeidade dita canônica dos meios de comunicação de massa, especialmente a televisão brasileira, meio que elegi como recorte para efeito ilustrativo deste estudo, e, dentro dele, a telenovela, cenário que considero bastante representativo dos valores da mídia sobre o corpo e a mulher, valores estes, marcados pelo hedonismo imagético e pelo apelo à sensualidade corporal. Falo aqui, portanto, de pessoas cujos corpos não se prestam à mais longínqua semelhança e identificação com estes modelos corporais adotados pela mídia televisiva, especificamente a telenovela, um dos principais produtos culturais brasileiros, sobretudo quando lemos cultura não como sinônimo de práticas simbólicas eruditas.
Adoto a pretensão de partir do pressuposto de que se trata de um tema árduo, duro, onde a abordagem teórica ingressa praticamente como uma metáfora para dar conta da sucessão de complexidades práticas de diversos níveis (sociais, éticas, históricas, estéticas, políticas, econômicas e médico-científicas) que envolvem a imagem, a identidade, a representatividade e a (in)visibilidade dessas mulheres que classifico aqui como representantes de uma corporeidade que nega, contradiz e destoa dos modelos corporais que em grande medida caracterizam o padrão corporal do repertório televisivo brasileiro.
O objeto de análise deste trabalho é a relação entre estes corpos sem imagem midiática e a cultura contemporânea, e o principal produto televisivo nacional, a telenovela, instrumento poderoso de inserção de modismos, padrões de comportamento, de imagens e de linguagem na pauta cotidiana brasileira, tendo em vista que a televisão, em um país marcado por altos níveis de analfabetismo e limitado acesso a bens culturais, é um elemento por demais significativo no que diz respeito às construções, leituras e reelaborações no imaginário coletivo. Em relação às mulheres portadoras de anomalias e ou diferenças/limitações de ordem física, a televisão, a telenovela, eqüivalem, na verdade, a uma metáfora do olhar social, que jamais se dirige a essas pessoas no sentido de situá-las como sujeitos e agentes sociais e culturais. E uma das pretensões deste relato é justamente estimular um certo desvio do olhar contemporâneo para uma cena ainda muito pouco vista, menos ainda olhada, fora das fronteiras da medicina.
Em um cenário marcado pela profusão de imagens e pelo apelo ao consumo do corpo como objeto estético e de prazer, considero estas mulheres um exemplo radical de opressão. Desde a emergência dos estudos de orientação feminista, tendemos a ler opressão sob diversas traduções: a mulher submetida a seculares padrões culturais que a condicionam à sub-valorização e à subserviência ao homem; a mulher vitimada pelas mais perversas formas de miséria econômica dos países pobres ou em desenvolvimento; a mulher submetida à violência política, sexual, etc. Entretanto, quero convidá-los a direcionar o olhar para um exemplo ainda mais radical de opressão, uma opressão silenciosa e invisível no universo sócio-econômico-cultural: a opressão das mulheres cujo corpo é considerado pela cultura contemporânea, sustentada na superficialidade das imagens, como a tradução da negação de papéis culturalmente atribuídos ao corpo feminino. A limitação física, a falta da capacidade de deslocamento sem prótese, a falta de um membro do corpo, as exclui, no imaginário coletivo, do exercício de sua sexualidade, sociabilidade e cidadania. O olhar midiático obviamente não é o responsável pela invisibilidade destas pessoas, mas parto do pressuposto de que ele, ao literalmente não focar-se jamais sobre elas, corrobora o pacto de invisibilidade silenciosamente firmado entre as esferas políticas e sociais.
Não defendo aqui que o homem com limitações físicas usufrua de uma posição privilegiada em relação às mulheres de corporeidades anômalas em relação às normais de funcionalidade do corpo. Acentuo apenas que as diferenças culturais e de gênero secularmente construídas entre ambos são potencializadas no contexto da deficiência. Relatos dão conta de inúmeros homens portadores de limitações que casaram-se com mulheres normais ou que mantêm-se casados ou em relações de conjugabilidade após um acidente que mutilou seu corpo. O inverso, entretanto, é raro. Mulheres casadas vítimas de doenças ou acidentes que lhe trazem seqüelas físicas, comumente são abandonadas por seus companheiros e, se solteiras e livres, dificilmente despertam interesse no universo masculino.
A opressão destas mulheres obviamente, como já dito, não é construída a partir da contribuição da mídia para a (re)produção de cânones corporais sem equivalência na prática, mas, ao menos que neguemos o papel influenciador dos meios de comunicação na elaboração e/ou manutenção do imaginário social, não podemos deixar de perceber que a sua não aparição legitima cada vez mais os papéis de não-corpo que lhes são associados. A não aparição contribui para a manutenção de uma forma emblemática de opressão e negação da identidade de um grupo de pessoas, não em função de raça, território, cultura ou status social. Se tomarmos como pressupostos o caso dos negros, mulheres e homossexuais, por exemplo, veremos que a visibilidade social e midiática destas categorias foi (e continua sendo) conquistada à custa de luta, militância e posicionamentos políticos assumidos perante o preconceito e a intolerância dos quais são vítimas. Mas mesmo assim não podemos negar os níveis de visibilidade destas categorias na sociabilidade contemporânea, embora, naturalmente saibamos que muitas vezes esta visibilidade se dá sob configurações caricatas. Com os portadores de limitações físicas, entretanto, o panorama é marcado, no Brasil, por um silêncio quase absoluto, raramente quebrado por vozes isoladas na própria mídia, sobretudo em contexto de programas que transformam em atrações espetaculares as vítimas da falta de acesso à saúde, à cidadania e ao exercício do direito de deslocar-se livremente. Na cultura contemporânea, a pouca visibilidade midiática dos fisicamente limitados se dá basicamente por três enquadramentos caricatos: o da exploração da miséria social, cujo exemplo típico são os programas do tipo mundo cão, onde a atual referência nacional é o Programa do Ratinho, espécie de freak show contemporâneos; o enquadramento do heroísmo, segundo o qual, “apesar” da deficiência, o sujeito deu a decantada volta por cima e venceu todos os obstáculos; e o do denuncismo, a imagem de pessoas fisicamente limitadas impedidas de circular em virtude das barreiras urbanas excludentes, como falta de ônibus adaptados, falta de estrutura física urbana para a circulação de cadeira de rodas, a impossibilidade de ingresso pelas portas eletrônicas de bancos, etc.
Para concluir, citarei um exemplo claro da rejeição à diferença física feminina na televisão brasileira: na novela “Torre de Babel”, a personagem Shirley, interpretada pela atriz Carina Barum, durante toda a novela sofria por apresentar uma diferença de tamanho entre uma perna e outra, o que a fazia caminhar diferente. Sob o argumento de que atendia a apelos do público, o autor da novela estabeleceu um final feliz para a personagem: após ser beneficiada com uma melhoria significativa do padrão econômico da família, a personagem foi submetida a uma cirurgia de alongamento da perna e foi feliz para sempre, tornando-se, inclusive, bailarina.
Este trabalho inscreve-se em uma pesquisa de Doutorado que desenvolvo atualmente na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, onde pretendo, de certa forma, estabelecer um contraponto entre a ‘cartografia’ do corpo brasileiro tal qual ele é representado pela televisão, através de seus ícones/ídolos de sucesso nesses 50 anos de vida da TV, destacando a predominância dos tipos olimpianos e de traços nórdicos, em contraste com o corpo real brasileiro, caracterizado pela multiplicidade de formas: o corpo negro, opulento, o corpo cabloco, índio, obeso, etc. Como ilustração dos corpos sem mídias, recorro às mulheres com diferenças físicas, congênitas ou adquiridas. Do ponto de vista metodológico, no que diz respeito às linhas situadas além da teoria da comunicação, o trabalho alinha-se aos estudos culturais e aos ‘disability studies’ de filiação inglesa. Por outro lado, a pesquisa alinha-se também a conceitos da bioética crítica de inspiração feminista, no que diz respeito ao processo de empowerment da mulher oprimida e culturalmente silenciada. De certa forma, tenho como um dos propósitos da pesquisa construir uma espécie de etnografia da cultura da deficiência diante dos mass media.
Vale ressaltar que, assim como nos estudos culturais promove-se uma revisão dos relatos dos povos colonizados por considerados eivados de um eurocentrismo/etnocentrismo, o mesmo se dá em relação aos disabily studies, embora, obviamente, em uma outra vertente: o discurso em torno da diferença física, entendida como limitação de uma das partes do corpo para realizar movimentos ou atividades, assim como o próprio conceito de deficiência/disability, são construídos em oposição à normalidade e a partir dela. É voz da normalidade que aponta, traduz e classifica a deficiência perante o espaço social. O fisicamente limitado é traduzido, definido, enquadrado, pelo normal que o vê e o supõe incapaz. E o sujeito desta ‘deficiência’, em que medida sente-se, identifica-se com esta tradução que se faz dele e na qual ele não tem voz? E se ele não se identifica-se ou não se reconhece nos enquadramentos que lhes são dados pelos discursos da normalidade, reproduzidos pelos media, vale ressaltar, em que espaços e com quais discursos ele constrói sua identidade e como a reproduz no imaginário coletivo?
A mulher deficiente, a nunca vista ou mostrada na mídia, representa para a sociedade de consumo, sobretudo para a nossa, cuja curta pequena tradição democrática ainda confunde cidadãos com consumidores – e em tese o diferente físico não se constitui em um consumidor, na medida em que a maioria dos produtos ditos fetichizantes, como a moda, aparentemente não se prestam ao seu uso, - o não-corpo, a não-imagem, o corpo deslocado de seu sentido cultural e funcional: o corpo que não desperta ou move o desejo masculino, que não se presta ao acolhimento do homem como objeto de oferta de prazer, cuidado e dedicação, que não está apto para a maternidade, para os cuidados do lar, para a agilidade profissional que o mercado exige. Os papéis secularmente atribuídos à mulher – sedutora, amante, mãe, dona de casa e mais recentemente, nas classes médias das metrópoles, a da profissional polivante, são, a priori, completamente negados a quem desloca-se com uma prótese exposta ou em uma cadeira de rodas.